Guaidó continua percorrendo o país no âmbito de sua anunciada Operação Liberdade e os chamamentos que faz continuam sendo conscienciosamente atendidos por muitas pessoas. Suas falas ocorrem principalmente em regiões empobrecidas que foram chavistas e onde agora é recebido com fervor, sem a presença de coletivos paramilitares ou da Guarda Nacional. Juan Guaidó está operando em meio a enormes dificuldades logísticas e com um feroz veto nas mídias oficiais. Às vezes até com dificuldades para contratar equipes de som para seus discursos na rua.

Os níveis de resposta a suas convocatórias continuam bons, mas para muita gente vai ficando claro que será necessário aumentar a pressão política em alguns decibéis. Poucos conseguem responder como. Guaidó pediu à população que se organize nos Comitês de Ajuda e Liberdade e foi explícito e reiterativo no momento de exigir compromisso. “Não venho pedir-lhes paciência. Venho pedir-lhes organização”, repetiu em suas recentes falas em Caricuao, San Martín e Petare, em Caracas, e em sua mais recente visita a Maracaibo, uma das cidades mais castigadas pelo colapso do país. Assegurou que já há mais de mil núcleos formalizados.

O fato é que, dois meses depois, apagões nacionais incluídos, Juan Guaidó está na rua, mas Nicolás Maduro continua no Palácio de Miraflores. Não parecem existir as certezas de antes em relação à iminência de um desenlace. Muitos começam a retomar seus trâmites para ir embora do país. Guaidó — cujo entorno está convencido dos riscos de estancamento — fez alusão em várias ocasiões à iminência da “fase final” da Operação Liberdade, mas ainda não formalizou providências, anúncios concretos nem datas específicas.

Contudo, é justo afirmar que no entorno dos políticos de oposição que acompanham Guaidó não há nada parecido ao desespero. Todos interpretam que o jogo continua completamente aberto e com opções. O fim do ruído em relação à possibilidade iminente de uma intervenção internacional fortaleceu o consenso sobre a necessidade de trabalhar a frente interna, mobilizando as massas, procurando fomentar um estado de consciência e atacando progressivamente vontades do estado chavista.

A chegada da Cruz Vermelha e o ingresso em massa da ajuda humanitária ao país, autorizados finalmente por Maduro, foram interpretados como um sucesso político, reivindicado pelas demandas de oposição e que compensa moralmente os esforços feitos na fronteira do mês anterior.

O mesmo acontece com o reconhecimento na Organização de Estados Americanos (OEA) com Gustavo Tarre Briceño, o novo embaixador designado por Guaidó para o organismo, e as declarações feitas por Michelle Bachelet e António Guerres nas Nações Unidas, em relação à magnitude social e econômica da crise venezuelana, que afundam ainda mais Maduro na zona de descrédito. A pressão internacional está criando sérias complicações ao envio das cargas de petróleo que a Venezuela faz a Cuba.

Entrincheirado, ainda que ainda com respaldo político, o Governo de Nicolás Maduro apresenta-se cada vez mais exposto diante da magnitude da crise, da qual procura se desligar. As tendências do descontrole cotidiano na Venezuela ultrapassaram todos os limites. Alguns especialistas vêm alertando quanto à iminência de uma crise adicional no serviço da gasolina, devido à queda do PDVSA e dos efeitos das sanções.

O líder bolivariano mantém intacto o poderio de seu eficaz aparato de inteligência e a simpatia expressa dos comandos militares. Maduro foi expandindo e depurando a existência de batalhões de civis armados como instrumento repressivo e de coação. Conserva certo níveis de adesões em algumas entidades federais pequenas e médias, de caráter rural, e demonstrou sua capacidade de resistir em condições adversas, administrando o caso e o esgotamento de seu oponente.