Gênio em tudo o que fazia, Nélson Rodrigues escrevia sobre futebol com o talento próprio dos foras de série. Assim, retratava o que acontecia nos campos de futebol com uma criatividade que levava os leitores a imaginar como seriam aqueles personagens que pareciam sair, muitas vezes, de uma história de ficção. 

Para Nélson Rodrigues, o Amarildo camisa 10 bicampeão carioca pelo Botafogo e bicampeão do mundo com o Brasil era o "Possesso", o jogador que acima do talento levava para o campo uma imensa e inegociável vontade de ganhar.

- Nélson Rodrigues foi o maior jornalista do Brasil da história. Eu tinha muito orgulho da marca que ele criou para mim. Até hoje tem gente que me chama de Possesso - diz Amarildo.

Para  o radialista Valdir Amaral, criador de muitos bordões e marcas no futebol, Amarildo, nos anos 1960, era o "Rei do Pênalti".

- No Botafogo, o Didi e o Quarentinha eram os cobradores de falta. Eu cobrava pênalti. Como nunca perdi um pênalti na carreira, ele me chamava de o Rei do Pênalti nas transmissões.   

Amarildo contou - e lembrou - muitas histórias na visita que fez nesta segunda-feira ao Museu Seleção. A emoção veio à tona pela primeira vez no sistema de áudio em que se ouvem, movimentando o dial, os gols da Seleção Brasileira através dos anos.

Ele chegou a comemorar o gol que marcou na Tchecoslováquia, na decisão da Copa do Mundo de 1962. O adversário estava vencendo por 1 a 0, quando Amarildo empatou o jogo no gol que abriria o caminho para a vitória de 3 a 1 e a conquista do bicampeonato mundial.   

Amarildo diz que o lance está gravado até hoje em sua memória. Ele conta os "bastidores" do gol e descreve o lance. Entusiasmado. 

- Eu tinha assistido ao jogo México e Tchecoslováquia, e o Paulo Amaral, que era o preparador físico da Seleção, me disse: "Olha, Amarildo, veja como o goleiro sai para interceptar os cruzamentos". No jogo, recebi a cobrança de lateral do Zagallo, parti para cima do lateral-direito Lala e, quando cheguei à linha de fundo, levantei a cabeça e vi que o Schrojf estava adiantado, como o Paulo Amaral observara. Não tive dúvida, chutei entre ele e a trave.

Antes, em seu primeiro jogo, quando entrou no lugar de Pelé, na partida contra a Espanha, ele marcou dois gols. Que também descreveu emocionado, a ponto de não segurar a lágrima que brotou.

- No primeiro, o Zagallo cruzou e eu me antecipei ao zagueiro Santamaria para marcar. No segundo, esperei o Garrincha acabar a "brincadeira" dele pela direita, driblando vários espanhóis, e só entrei na área, quando vi que ele ia cruzar mesmo. O Vavá fez o corta-luz e eu enfiei a cabeça para desempatar. Foi o gol que valeu a classificação para as quartas de final.   

O Possesso, o Rei do Pênalti, artilheiro de muitos gols, Amarildo possuía ainda mais uma qualidade que o distinguia dos jogadores comuns: a forte personalidade e confiança inabalável. Quando o avisaram que ele ia entrar no lugar de Pelé na Copa de 1962, em momento algum ele sentiu o peso da responsabilidade. Ao contrário.

- Nunca pensei em ser o substituto do Pelé. Eu era o Amarildo e como tal ia jogar, não ia substituir ninguém. Ainda mais que ao meu lado teria o Garrincha, Didi, Zagallo, Nilton Santos, todos companheiros do Botafogo. Eu só me preocupei em não deixar com que sentissem a ausência do Pelé. E foi que aconteceu. 

Na sua visita ao Museu, Amarildo se emocionou várias vezes. Em uma delas, contou ao garoto Guilherme, seis anos, torcedor do Flamengo, como fora  seu gol, que os dois assistiam pelo telão.

- Isso não tem preço. Vocês me fizeram voltar a um tempo em que fui muito feliz - contou Amarildo, que completa 76 anos nesta quarta-feira e será homenageado pela CBF como entrevistado no programa Histórias do Futebol.  

- Vai, Possesso! - assim como ele gritou ao entrar na sala em que seus gols eram exibidos no telão.